16/04/2010
Cada vez mais endividado, brasileiro ainda opta pelo 'dinheiro fácil'
Aumento da oferta de crédito e condições econômicas favoráveis estimulam endividamento, que já chega a 63% da população
O aumento da oferta de crédito no País aquece a economia, ao colocar mais dinheiro em movimentação. E acelera a outra ponta dessa cadeia, que é o endividamento do brasileiro. Levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) feito com 17,8 mil consumidores de todas as capitais e Distrito Federal mostra que, em março, o total de brasileiros que declararam ter alguma dívida chegou a 63%.
Em janeiro deste ano, quando a pesquisa começou a ser feita, esse número estava em 61,2%. Segundo dados do Banco Central (BC), as concessões de crédito do sistema financeiro para pessoa física somavam R$ 650 bilhões ao final de fevereiro, um crescimento de 19,3% no período de 12 meses.
A perspectiva favorável para o trabalhador, com o aumento da oferta de emprego e renda, o incentiva a utilizar as diversas formas de crédito disponíveis. Mas a variedade de opções nem sempre leva a uma escolha mais consciente. "O consumidor tende a buscar as opções mais fáceis de crédito, que impõem menos barreiras, ou seja, menos critérios de seleção", alerta o economista da CNC, Fábio Dentes.
Isso justifica o fato de que 72,5% das famílias endividadas indiquem o cartão de crédito como o principal tipo de dívida, seguido pelos carnês, com 27,4%, e pelo financiamento de veículos, com 12,5%. "É recorrente o limite do cartão de crédito de uma família atingir o limite de sua renda mensal, o que não ocorre em outros tipos de financiamento", aponta Dentes.
Mas a facilidade de acesso custa caro: o cartão de crédito, segundo pesquisa da Anefac, possui a maior taxa de juros entre as modalidades de crédito ao consumidor, com 10,69% ao mês, ou 238,30% ao ano. Mesmo o cheque especial, outro campeão de juros altos, cobra bem menos: em média 7,38% ao mês, ou 135,01% ao ano.
Avanço do crédito
O crédito no Brasil representa 45% do PIB. Em 2001, esse porcentual não passava dos 27%. Apesar do avanço, o segmento no País ainda é considerado tímido, se comparado a países como os Estados Unidos, cujo crédito atinge 187% do PIB (final de 2008), a Inglaterra, com 155% do PIB, a China, com 123% do PIB ou a Índia, com 78% do PIB. Essa diferença não significa, no entanto, que o País possa aumentar sua taxa de crédito de forma ilimitada.
"A percepção de alguns analistas de que o crédito no Brasil ainda deve avançar muito é perigosa", alerta o professor da EAESP-FGV, José Pereira da Silva. "Nós não suportaríamos chegar ao nível de endividamento do norte-americano." O professor explica que o custo da dívida no País ainda é muito elevado, além de a população ainda possuir renda baixa e prazos relativamente curtos de financiamento.
Silva aponta a popularização do uso do cartão de crédito pelas faixas de população com renda mais baixa como ponto de preocupação, uma vez que o comprometimento da renda dessas famílias para suprir necessidades básicas ultrapassa os 80%. "Há nesses casos mais necessidades reprimidas, pois estão fora do poder real de consumo dessas pessoas", explica.
Inadimplência
Mesmo com o crescimento do endividamento registrado nos últimos meses, a taxa de inadimplência tem caído significativamente. Dados do BC mostram que, nos últimos 12 meses, a porcentagem de inadimplentes caiu 1,1 ponto porcentual, para 7,2%. Tal desempenho é justificado pelos analistas como consequência do aumento do nível do emprego no País.
Mas a expectativa de aumento da taxa básica de juros nos próximos meses, aliada ao crescimento do endividamento em ritmo superior ao da renda, deve aumentar a quantidade de inadimplentes no segundo semestre deste ano, avalia a CNC.
Dinheiro mais barato
A principal dica sobre finanças pessoais repete que não se deve avaliar um financiamento apenas pelo valor da prestação - para saber se ela "cabe" no orçamento familiar. Informar-se sobre qual opção oferece a menor taxa de juros, no entanto, é apenas parte da avaliação que deve ser feita antes de se endividar.
Segundo o professor da FGV, é preciso, antes de tudo, ter certeza de que o produto ou serviço é uma necessidade inadiável e inevitável. Feita essa avaliação, o custo desse dinheiro deve ser comparado entre as opções. "Até mesmo o crédito consignado deve ser visto com cautela", avisa Silva. "Mesmo ele é muito caro, se você considerar que são 2% ao mês."
Para quem já está comprometido com um financiamento a juros elevados, vale trocar o tipo de dívida, por uma mais barata. "Se uma família está com uma dívida no cartão de crédito e possui um carro quitado, uma saída interessante é refinanciar o veículo a uma taxa bem menor e quitar a dívida do cartão", aconselha.
*fonte: Estadão






